A Grande Rebelião

A porção da Torá desta semana narra a trágica história da grande rebelião liderada por Côrach , primo de Moshe.

Assim como Moshe e Aharon, Côrach era bisneto de Levi, e sua rebelião, infelizmente, tinha raízes na inveja. "Por que meus primos Moshe e Aharon são os líderes?!", pensou Côrach . "Por que não eu?"

Então, junto com seus dois filhos, Côrach incitou os notórios Datan e Abiram, On filho de Pelet, e mais 250 membros da tribo vizinha de Reuven. Apoiado por esse grupo rebelde, Côrach confrontou Moshe e desafiou sua liderança, acusando-o de tomar injustamente os cargos de liderança mais importantes — líder e Cohen Gadol (sumo sacerdote) — para si e para seu irmão Aharon.

Moshe propôs um teste para determinar quem era verdadeiramente digno da liderança: que todos trouxessem uma oferta de incenso ao Tabernáculo e que D’us revelasse Sua escolha para Cohen Gadol. Ele tentou apaziguar o grupo rebelde, mas eles continuaram seu motim, crescendo e expandindo suas fileiras.

Então, ele pediu a D’us que tornasse o castigo de Côrach único e inesquecível, o que me lembra uma história que ouvi quando criança:

Três homens cometeram um crime punível com a morte. Eles compareceram perante o rei e foram condenados à morte. O rei, porém, querendo demonstrar sua benevolência, permitiu que cada um escolhesse a forma de sua execução.

O primeiro homem escolheu morrer pela espada, por ser a maneira mais rápida. O segundo homem escolheu morrer pelo fogo, a opção mais romântica.

“E como você gostaria de morrer?”, perguntou o carrasco do rei ao terceiro homem.

“De velhice!”

Moshe argumentou que, se Côrach e seus seguidores morressem de velhice, isso demonstraria que ele, Moshe, havia agido por conta própria. Se suas mortes fossem incomuns, no entanto, todos saberiam que ele havia agido apenas em nome de D’us.

Inacreditavelmente, a terra se abriu e engoliu Côrach e sua família, e um fogo celestial consumiu os outros rebeldes. No dia seguinte, o povo reclamou que Moshe e Aharon eram os culpados por essas mortes. D’us, compreensivelmente irado, enviou uma praga que matou milhares. Moshe instruiu Aharon a pegar rapidamente um incensário, ir ao meio da congregação e expiar seus pecados. Aharon assim fez, ficando “entre os vivos e os mortos”1, e a praga cessou.

Levar o quê?

A parashá começa com o versículo: “Côrach, filho de Izhar, filho de Kehat, filho de Levi, levou, juntamente com Datan e Abiram, filhos de Eliab, e On, filho de Pelet, descendentes de Reuven...”2

O que exatamente Côrach “levou”?

Rashi, citando o Midrash, explica que ele “levou” o povo com suas palavras, persuadindo-os a se juntarem à sua revolta. Mas, principalmente, diz Rashi, o que Côrach levou foi a si mesmo: “Ele se afastou para se dissociar da congregação, para contestar a nomeação de Aharon para o cargo de Cohen Gadol… Ele se separou da congregação para persistir em uma disputa.”

O ciúme pode matar. E nesse estado, Côrach se isolou do povo judeu, “se afastando”, para nunca mais voltar.

Todos Devemos Desempenhar Nosso Papel

A afirmação de Côrach era nobre: “Não há nada de especial em você, Moshe. Todos nós — toda a nação — ouvimos D’us falar no Monte Sinai. Todos estamos no mesmo nível elevado de santidade! Você nomeou Aharon e a si mesmo como líderes, mas todos nós somos líderes!”

Côrach queria que todos tivessem papéis iguais. A ausência de um líder óbvio cria anarquia. Cada pessoa tem um papel distinto. O Cohen tem o seu papel, o levita tem o seu e o israelita tem o seu. A afirmação de Côrach de que todos os judeus são santos estava correta; seu erro foi tentar eliminar nossa individualidade. Cada pessoa tem suas próprias habilidades, pontos fortes e talentos únicos, e é somente quando cada um desempenha seu papel e cumpre suas funções que podemos servir a D’us adequadamente, juntos. Cada pessoa deve fazer o que D’us espera especificamente dela. Algumas mitsvot só podem ser cumpridas por um Cohen, algumas por um Levi, algumas por um rei e algumas por agricultores. Algumas tarefas devem ser realizadas por homens e outras por mulheres.

Isso não parece muito democrático! Não podemos servir no Tabernáculo só porque nem todos somos sacerdotes?

Exatamente, explicou o Rebe. Todos somos santos, mas não somos todos iguais. Somos todos únicos e nos complementamos. Ninguém está aqui por acaso. Todos fomos criados por D’us através de Seu projeto Divino e devemos celebrar e maximizar nossas forças e talentos individuais.3

Casamento, a grande parceria

Uma das maiores mitsvot, parte da Campanha das Dez Mitsvot do Rebe, é acender as velas de Shabat. Ela tem origem nos ensinamentos rabínicos e se tornou uma marca registrada do judaísmo.

Quem acende as velas de Shabat? Mulheres e meninas. Tradicionalmente, quando uma menina completa três anos, ela começa a acender as velas de Shabat. Surge então a pergunta: se é uma mitsvá tão importante, por que um homem não acende as velas de Shabat?

A resposta, baseada em um ensinamento fantástico da Cabala, é que ele acende. Como? Porque sua esposa faz isso por ele. E se ele não for casado? Não importa. Sua esposa ainda está fazendo isso por ele. Ele simplesmente ainda não sabe quem ela é.4 Da mesma forma, toda sexta-feira à noite recitamos o Kidush — santificando o Shabat com uma bênção feita sobre um copo de vinho. Esta é uma mitsvá muito importante. E, em geral, o Kidush é recitado por homens. Por que não são as mulheres que o recitam? Porque os homens recitam o Kidush em nome das mulheres.

(Note que os homens precisam ter velas acesas em suas casas, e os homens que moram sozinhos devem acender velas. Da mesma forma, as mulheres devem fazer o Kidush ou ouvi-lo de alguém — mesmo que não seja seu marido.)

Os homens cumprem os mandamentos das mulheres, e as mulheres cumprem os mandamentos dos homens. Os reis cumprem os mandamentos dos agricultores, e os agricultores cumprem os mandamentos dos reis. O Cohen e o Levi cumprem os mandamentos dos israelitas, e todos nós cumprimos os mandamentos uns pelos outros. Este é o plano mestre da criação Divina, no qual todos nós desempenhamos um papel distinto.

O dom da vida de um cônjuge

No início, o versículo afirma que Côrach começou sua rebelião com Datan e Abiram, On, filho de Pelete, e outros 250 da tribo de Reuven. No entanto, quando os rebeldes confrontaram Moshe, o nome de On desapareceu repentinamente. Para onde ele foi?

O Talmud5 explica que as ações ousadas da esposa de On salvaram a vida dele. Quando a Sra. Pelet soube da participação do marido na rebelião, argumentou com ele: “O que você poderia ganhar com isso? Você é da tribo de Reuven. Esta é uma disputa entre os levitas. Por que você precisa se envolver em uma discussão que não é sua?”

On disse: “Mas eu já estou comprometido! O que devo fazer?”

Então sua esposa disse: “Deixe comigo.”

Ela lhe deu vinho suficiente para que ele caísse em um sono profundo e, em seguida, sentou-se à entrada da tenda, com os cabelos soltos e descobertos. “Essas pessoas podem ser rebeldes”, argumentou ela, “mas ainda respeitam as leis da modéstia, e nenhum homem se permitirá ver os cabelos de uma mulher casada.”

Seu plano funcionou. Qualquer membro da turma de Côrach que se aproximasse da tenda para buscar On encontrava a Sra. Pelet sentada ali, penteando os cabelos, e rapidamente se afastava. Quando On acordou, tudo já havia terminado. Isso nos ensina que uma mulher sábia pode literalmente salvar a vida do marido!

O impacto de um vizinho

À primeira vista, a parceria de Datan e Abiram com Côrach parece estranha. Côrach era da tribo de Levi e eles eram membros da tribo de Reuven. Como se envolveram uns com os outros?

As tribos acampavam no deserto em uma formação muito específica, com três tribos de cada lado do Tabernáculo. As famílias de Levi cercavam o Tabernáculo, com as famílias de Moshe e Aharon a leste, Kehot ao sul, Guershon a oeste e Merari ao norte. As três tribos acampadas ao sul eram Reuven, Shimon e Gad. Assim, Datan e Abiram, da tribo de Reuven, eram vizinhos de Côrach e da família de Kehot. Com seus quintais adjacentes, eles costumavam frequentar uns aos outros.

“Ai do ímpio e aí do seu próximo!”6 declara a Mishná. Os vizinhos podem influenciar uns aos outros, por isso devemos ter muito cuidado com o lugar onde escolhemos morar. Nossos filhos passarão muito tempo com as crianças da vizinhança, e essa proximidade certamente terá um impacto sobre eles.

A Mishná, em Ética dos Pais, instrui: “Afaste-se de um mau vizinho.” 7 A tribo de Reuven não se afastou de Côrach, e alguns de seus membros pagaram por esse erro com a própria vida.

O segredo do incenso

Quando uma praga irrompeu em resposta à queixa do povo de que os rebeldes haviam sido mortos, Moshe instruiu Aharon a pegar incenso — ketoret — e levá-lo ao meio da congregação para expiar seus pecados. Quando Aharon fez isso, a praga cessou.

Nos ensinamentos da chassidut, que se baseiam na Cabala, descobrimos que uma das razões pelas quais o incenso é uma ferramenta tão poderosa é a sua conexão com o olfato. 8 Quando uma pessoa desmaia, primeiro tentamos reanimá-la chamando-a pelo nome. Isso é eficaz porque o nome está relacionado à essência da pessoa. Se isso não funcionar, usamos sais aromáticos ou incenso e os colocamos sob o nariz da pessoa desmaiada. Por quê? O olfato é um canal poderoso para a essência da alma.

Espiritualmente, o incenso, ao atingir o âmago da pessoa, demonstra que, mesmo que ela peque, a essência de sua alma permanece sempre pura.

Onde Moshe aprendeu o segredo do incenso e sua capacidade de deter uma praga? O Talmud9 relata que, quando Moshe ascendeu aos Céus para receber a Torá, os anjos lhe presentearam com dádivas. O Anjo da Morte revelou-lhe a conexão secreta entre o incenso e a contenção de uma praga.

Ironicamente, Aharon, o Cohen Gadol, mesmo com seu papel desafiado, correu para o meio da multidão com o incenso para cumprir sua missão! O privilégio e a missão do Cohen Gadol é interceder e ajudar a salvar seu povo. O papel de Aharon é usar o incenso para expiar os pecados dos judeus. O Cohen Gadol trazia incenso para expiar o povo a cada Yom Kipur — o serviço mais sagrado do dia mais sagrado — e fazia o mesmo sempre que houvesse necessidade de expiação. Isso é liderança. E isso é Aharon cumprindo seu papel e contribuindo com sua parte única do plano Divino.

Todos nós temos papéis distintos a desempenhar em Seu plano Divino. Sem olhar para os outros e cobiçar seus papéis, devemos cumprir nossas respectivas missões da melhor maneira possível.

Que possamos merecer ver nosso justo Mashiach cumprindo seu papel, trazendo a Redenção Final, e que isso aconteça em breve, em nossos dias. Amém.